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Posted by : wagner elias 08 maio 2014

  Quer criar uma história embasada em mitologia? Por que não usar a nossa? O que? Folclore brasileiro é bobo, chato, medíocre e desinteressante? Há controvérsias, amiguinho. Vamo discutir isso?

  O quadrinho legitimamente nacional está vivendo um período de redescobrimento. Nossos artistas estão amadurecendo e, aos poucos, novas concepções estão surgindo em relação ao verdadeiro significado de quadrinho nacional. Até pouco tempo atrás a maioria dos artistas via os quadrinhos através de uma semiótica restrita e equivocada. Com o tempo, porém, os conceitos sobre a brasilidade dos quadrinhos foi se expandindo e aos poucos legitimando um panorama mais autêntico. Hoje já temos uma quantidade relevante de obras que servem-se de elementos emprestados do nosso rico folclore. Entretanto, mesmo essas obras tematizadas em mitologias tupiniquins não parecem agradar a muitos leitores. O que há de errado então?
  Primeiramente vamos entender por que temos a tendência de mediocrizar a nossa própria cultura. Pense em folclore brasileiro. Pensou? O que lhe veio à mente? Provavelmente as representações bobas ou infantilizadas que nos foram apresentadas através da literatura, livros didáticos e programas de televisão que insistem em desenhar um retrato simplório e muitas vezes estúpido das lendas e mitos herdados de nossos antepassados. Por outro lado, pense na mitologia greco-romana, nas fascinantes lendas orientais ou no fabuloso folclore nórdico. Viu só? Não parecem muito mais interessantes? Não é pra menos, afinal todas estas sempre foram retratadas ao longo das eras com enfoque em suas vertentes mais atraentes, cativantes, divertidas ou mesmo aterrorizantes.
  Olha aí alguns exemplos de representações folclóricas de diferentes culturas:
  A partir de um ponto de vista genérico não há dúvidas de que um fauno ou um unicórnio são muito mais legais do que um curupira e uma mula-sem-cabeça. Ou que o lendário Sun Wun-Kun da lenda chinesa é muito mais fascinante do que o enfadonho Saci Pererê das nossas frívolas lendas. Esta intuição é provocada por um conceito equivocado e já pré-estabelecido. Entretanto, se você se empenhar em um estudo profundo sobre todas essas lendas vai notar que não são muito diferentes entre si. Sem muito esforço você logo identificará grandes semelhanças entre nossa mitologia e as fabulosas mitologias estrangeiras. A diferença está na forma como foram relatadas para nós. Vamos exemplificar?
  Vou usar como exemplo um dos mangás de maior sucesso da atualidade: Naruto.
Talvez a maioria de nós brasileiros nem tenha percebido no mangá de Masashi Kishimoto as influências de uma antiga lenda japonesa registrada nos antigos livros Kojiki e Nihonshoki, que relatam a criação do mundo. Vários elementos da lenda estão presentes no mangá como o vilão Oroshimaru e sua espada Kusanagi. Na lenda japonesa o dragão de oito cabeças Yamata no Oroshi  possui dentro de seu corpo uma espada chamada Kusanagi. Além dessa encontramos muitas outras referências como a maioria das técnicas utilizadas pelos ninjas (Susanoo, Tsukuyomi, Amaterasu, Izanami e Izanagi, só pra mencionar alguns) e também alguns personagens como a raposa de 9 caudas Kurama (Kyuube) e a esposa de Namikaze, Kushina.
  Veja então um trecho da lenda sobre a origem do Céu e da Terra na qual Kishimoto se inspirou. O trecho descreve o momento em que um casal de divindades celestiais recebeu a ordem para organizar a terra:

"Então os deuses se reuniram e deliberaram longamente sobre a terra, que continuava sendo a mera mescla de águas e terras, informe e plana. Decidiram por enviar um par deles para organizar a terra, e assim O Venerável Izanagi e a Venerável Izanami receberam um Grande Mandamento, que dizia: "Regulai e consolidai a terra em movimento". Assim ordenando, foi a eles confiada a ordem e a lança celestial, Ama-o-Nukobo, que estava coberta de pedras preciosas."

Tradução por Daniel Silva do livro Kojiki, que relata a história do Japão

escrito a partir de histórias que passam de geração em geração

e também em eventos memorizados do livro original Kujiki, cujos manuscritos não existem mais.


Agora compare com esse trecho de uma lenda indígena relatada oralmente e registrada em texto no livro Antes o Mundo não Existia, publicado pela primeira vez pela Livraria Cultura Editora (São Paulo, 1980), escrito pelos índios Umúsin Panlõn Kumu e Tolamãn Kenhíri que relatam a origem do mundo conforme a compreensão dos Dessanas.

"Então Yebá bëló resolveu fazer um outro ser. Mascou ipadu e fumou cigarro e da fumaça deste fez surgir um ser invisível, Ëmëko sulãn Palãmin, e deu-lhe a ordem de fazer as camadas do universo e a futura humanidade. Erguendo seu bastão-chocalho, Yebá bëló elevou Ëmëko sulãn Palãmin até a torre do rande morcego. Colocando enfeites masculinos e femininos na ponta do bastão nessa torre, fez a ponta assumir um rosto humano, que deu luz até os confins do mundo; era o Sol que acabava de ser criado."

Trecho resumido do primeiro capítulo “Como apareceu Yebá bëló do nada” (pp. 49-58),
pelo antropólogo Julio Melatti.

  Perceba a semelhança entre os dois textos. Temos um deus ou deuses maiores que delegam a responsabilidade sobre a criação da Terra a divindades menores. Temos também na primeira lenda a lança celestial e na segunda o bastão chocalho, artefatos mitológicos que foram usados no processo de concepção do mundo. Se você continuar lendo as duas lendas vai notar muitas outras semelhanças tanto em enredo quanto na estrutura narrativa e logo chegará à conclusão que as mitologias são sempre mitologias, independente de sua origem. E para nós quadrinistas basta saber adaptar e contar do nosso jeito, esquecendo as representações medíocres que nos foram impostas e concebendo traduções mais criativas e atraentes para o nosso universo cultural.
  Então chegamos ao X da questão. O que importa não é o "quê", e sim o "como". O que você vai usar como base? Mitologia brasileira. Como você vai usá-la? Aí é que tá o problema, entendeu? É como uma piada. Mesmo que eu escolha uma boa piada pra contar, o modo como eu a conto faz com que todo mundo fique me olhando com cara de "e daí?". Por outro lado, se o Tiririca conta uma piada, mesmo que sem graça, todo mundo cai na gargalhada, porque o que vale é como ele conta. Da mesma forma você tem à sua disposição um amplo universo mitológico proveniente da sua própria cultura, mas será que você sabe como representá-lo? Para ajudá-lo nessa difícil tarefa vou apresentar alguns aspectos erroneamente utilizados por muitos artistas e alguns métodos que o ajudarão a usar o folclore brasileiro nas suas histórias de forma natural, espontânea e, acima de tudo, interessante. Mas não agora pois já reclamaram que meus textos são muito grandes.

Então, até a segunda parte dessa matéria e feliz "Victoire du 8 mai 1945" para todos os franceses.

{ 3 comentários... read them below or Comment }

  1. Estou trabalhando a cerca de 1 ano com uma história em quadrinhos baseado no folclore nacional e achei muito legal a matéria que escreveu. Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Olá, sou fundador do projeto Batalha de Mitos. Gostaria de conversar com vc pelo Skype. Veja no youtube por Batalha de Mitos: https://www.youtube.com/results?search_query=batalha+de+mitos

    ResponderExcluir
  3. Cara, gostei muito do texto, e graças a ele, vou começar a seguir seu blog(Luís, editor do Blog Muito Além das Aspas)

    Nos, da equipe do Muito Além das Aspas, sentimos falta deste meio de literatura para a divulgação de nossa cultura. Não acredito que uma saga bem montada em cima dos mistérios da Amazônia deixaria a desejar, por exemplo, aos mitos dos Deuses do Olimpo ou os misterios do oriente.
    Mas acredito que vivemos no Brasil uma crise de identidade nacional, onde dá a margem da interpretação de que tudo de fora é melhor que o conteúdo Brasuca. Será? Ou será falta de experiencia em saber contar/adaptar?

    Mais uma vez parabéns pela abordagem bem feita do tema e você acaba de ganhar um seguidor ^_^

    Obrigado!
    Equipe Muito Além das Aspas

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